"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

sábado, 22 de novembro de 2014

Jogo de Espelhos, de Agatha Christie


Publicado em 1952 com o título "They do it with mirrors", "Jogo de Espelhos" é o 12.º livro da série "Marple", da autoria de Agatha Christie. 

Um entrançado interessante, em que Miss Marple, ao contrário do quem vem acontecendo em alguns livros da saga, assume um papel ativo na investigação do homicídio, em casa de uma grande amiga de infância. Uma família de pessoas onde existem mais ressentimentos e ódios entre todos, do que espírito de união familiar, tendo como "cereja no topo do bolo" a existência de um asilo para jovens deliquentes, que muitos querem usar como bode expiatório do crime cometido.

Não será o melhor livro da saga, mas sem dúvida que é um daqueles a não perder. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Virgem, de Luís Miguel Rocha


Sendo um dos autores portugueses que mais aprecio, este é um livro "fora do baralho" do que costumam ser as suas obras. Segundo uma nota do próprio autor no final do livro, o primeiro capítulo deste foi escrito aos seus 16 anos, inspirado e embebido no estilo de José Saramago. 

Um narrador ausente, mas em constante diálogo com o leitor, cativa-o de incessante forma a conhecer melhor a história e as estórias dos Silveira e dos "Condes". Mergulhando a narrativa em constantes analepses, trazem-nos ao presente narrativo as circunstâncias que justificam determinado acontecimento. E subitamente o livro termina. Com bastantes "pontas soltas", e com a certeza que esta história terá uma continuação. Que esperemos que nos chegue brevemente... 

Este livro é a prova da versatilidade e do génio criativo que é Luís Miguel Rocha. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

D. Maria a empregada de Cavaco, de António Ribeiro


Lançado em março de 2012, este é o segundo livro de António Ribeiro com a crítia a uma personagem política portuguesa. O seu alvo foi nada mais nada menos que o próprio presidente da República, Cavaco Silva. É uma narrativa presente, em que D. Maria, a cozinheira e empregada de limpeza do Palácio de Belém, nos trás o dia-a-dia de um presidente (im)parcialmente político, pelas próprias descrições que esta faz dele. Com uma admiração inata por Cavaco Silva, D. Maria traz-nos uma rotina diária pontuada de aspetos humorísticos, em que as maiores gaffes de Cavaco (como as suas duas reformas que não lhe chegam para as despesas) são aqui amplamente dissecadas. 

domingo, 19 de outubro de 2014

Zorro – o começo da lenda, de Isabel Allende


Quando se começa a ler um livro, as expectativas sobre ele podem ser maiores ou menores. Sobre o Zorro, não tínhamos uma expectativa muito além. Sabíamos que Allende escreve bem (temos a experiência da trilogia d’ “As Aventuras da Águia e do Jaguar”). “Zorro – o começo da lenda”, sendo a oferta de uma editora por uma outra compra, pensamos que seria um livro pouco interessante. Pensamento mais errado.

Lançado em 2005, este é o 13.º romance da autora. São 443 páginas de uma escrita arrebatadora e fluída. Apesar de não ser um romance que procura atingir um ponto alto – um clímax, deparamo-nos sim com pequenas narrativas de encaixe umas nas outras, os episódios que levaram à transformação de Dom Diego de La Vega no Zorro. Tendo pegado numa personagem com oitenta anos, Allende conseguiu reinventar a lacuna biográfica desta: o período que media o conhecimento dos seus pais até ao seu regresso de Espanha, onde recebeu uma educação diferente da que teria na Califórnia espanhola.

Narrado na primeira pessoa por uma das personagens, que apenas na última parte se revela, passados 25 anos do regresso à Califórnia. Um relato pontuado por um bom humor incessante de passagens tão deliciosas quanto esta:

Durante várias semanas no mar alto os rapazes nunca dispuseram de um momento de privacidade; até as funções mais elementares eram levadas a cabo à vista dos outros num balde, se havia ondulação, ou, em caso contrário, sentados numa tábua com um buraco diretamente sobre o mar. Ninguém sabe como se arranjou a púdica filha do auditor, porque nunca a viram despejar um bacio. Os marinheiros trocavam apostas a esse respeito, primeiro mortos de riso e depois assustados, porque uma obstipação tão perseverante parecia coisa de bruxaria” (p. 120)


Um romance que mais que nos transportar para o mundo daquelas personagens, nos alerta para o tempo negro da escravatura e do desrespeito aos índios. Num cenário de abusos, era ao Zorro que competia fazer justiça.  

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Obras de Eugénio de Andrade, volume 1


Editado pela Assírio e Alvim, este volume reúne as três primeiras obras poéticas de Eugénio de Andrade. “Primeiros Poemas” trata-se de uma seleção de dez poemas do autor das suas duas primeiras obras, “Adolescente” (1942) e “Pureza” (1945). São poemas curtos, que variam entre uma e três estrofes, e os maiores têm apenas onze versos. São poemas simples, pontuados por ligações à agua (fonte, ribeiro), à noite, à natureza. Destes destacamos:

PAISAGEM
Entre pinheiros
três casas.
Uma azenha parada.
Uma torre erguida
de fraga em fraga
contra o céu de cal.
E um silêncio talhado
para o voo de um moscardo
alastra de casa em casa,
sobe à torre abandonada
e sobe a azenha parada
tomba desamparado.

“As mãos e os frutos”, pulbicado pela primeira vez em 1948, é uma obra com 35 poemas numerados, a maioria dos quais sem título. Ao nível da forma vai do dístico a estrofes com mais de uma dezena de versos. Estes poemas são pontuados igualmente por elementos naturalistas, por uma leveza, na sua grande maioria. Os frutos são constantes (ou não dosse esse o seu título… vão das espigas, vinhas, cerejas e romãs. Vimos igualmente um certo jogo de sonoridades, que dá uma musicalidade à poesia (“e ficaria surdo e cego e mudo”; “a tua vinha sem vinho”).


Por fim, “Os Amantes sem Dinheiro”, lançado em 1950, trata-se de cerca de vinte poemas, todos titulados. Transversalmente, podemos considera-lo como sendo pontuado por três grandes temas: a liberdade (personificada numa gaivota), a mãe e o amor. É inclusivamente o último poema, “Adeus”, que nos traz o que fica do fim de uma relação. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares


Este foi o segundo romance do autor, posterior ao célebre Equador, publicado pela primeira vez em 2007. É a história da vida de um homem, que começa na sua adolescência e vai até à sua “meia-idade”. Traz-nos o retrato do Portugal do fim da monarquia, da agoniante primeira república e sobretudo do início do regime salazarista até ao final da 2.ª Guerra Mundial. De como viviam os grandes proprietários alentejanos. De como sobrevivia um indivíduo inconformado com o que o destino lhe dera: ser morgado, ou ser o dono de uma grande herdade alentejana. De como queria mais e queria ir mais além. E é isso que este livro retrata: a busca pelo seu lugar no mundo de um homem que não estava conformado com o que o destino lhe deu.

Encontramos aqui uma excelente construção narrativa, com processos encadeados ao longo das 600 páginas, alternados com uma descrição (excessiva, na nossa opinião) da situação política que se vivia naquela altura um pouco por todo o mundo. Personagens muito bem construídas, sobretudo o próprio protagonista, o seu irmão, a sua mãe e a sua mulher. Chegamos ao fim com sensação de conhecer o interior daquelas quatro pessoas no que de melhor e de pior pensam, das suas aspirações, dos seus desejos, dos seus amores, das suas paixões.


Todo o livro, para poder ser considerado uma obra literária, deve transmitir uma mensagem. A d’ “O Rio das Flores” é clara: Nunca deixar de lutar por aquilo que queremos para nós mesmos!

domingo, 12 de outubro de 2014

Cinco Dias, Cinco Noites, de Manuel Tiago

Esta obra é classificada como uma novela. Lançada pela primeira vez em 1975, é assinada por Manuel Tiago, pseudónimo literário de Álvaro Cunhal.

É uma novela, quase fotográfica, que conta a passagem clandestina de um rapaz (André) para Espanha durante o Estado Novo, com a ajuda de um homem, Lambaça, que não tinha boa fama e é uma personagem enigmática.

É um livro que se lê rapidamente, e que nos trás ao presente as dificuldades bem recentes que se viveram no período da ditadura portuguesa. Numa altura em que emigrar era necessário, para fugir à miséria, mas era bastante difícil. Este livro traz-nos um pouco dessa dificuldade. 


Foi adaptado ao cinema em 1996.

sábado, 11 de outubro de 2014

Ursamaior, de Mário Cláudio


Este romance foi lançado em 2000. O seu título é uma analogia aos seus protagonistas: são as sete estrelas da constelação da Ursa Maior. São sete homens que, por circunstâncias várias, vão parar à prisão.

O livro pode ser separado em duas partes, ainda que estas estejam intercaladas. A primeira com um narrador ausente e a segunda narrada na primeira pessoa, alternadamente entre os sete protagonistas. Esta última torna-se bastante interessante, na medida em que estes descrevem as suas vidas antes de ir ter à prisão e o modo como lá foram parar. Quanto à parte de narrador ausente, assume-se a nosso ver, excessivamente descritiva.


Quanto à ação em si, não é um livro que possamos chamar “em movimento”. Com efeito, as personagens apenas mergulham em breves analepses para contar a sua história. E há um ou outro episódio passado na cadeia. Nada que nos faça ansiar pelo fim, para descobrir como acaba, por na verdade, não há nada começado para se acabar. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crime no Hotel Bertram


Este policial de Agatha Christie, publicado pela primeira vez em 1965, é o 9.º da série protagonizado pela solteirona Miss Marple. Encontramos Miss Marple mais debilitada do que a encontramos nas Caraíbas, no volume anterior. Aqui foram-lhe oferecidos alguns dias pela esposa do seu sobrinho num hotel londrino – O Hotel Bertram. Sobrinho este que nos primeiros volumes da série Marple era um jovem escritor com os seus primeiros livros, e que aqui vamos encontrar já na casa dos 50s, como um escritor de sucesso. Por esta forma, podemos ver o quão tempo passou desde o início da série.

Tendo este hotel como pano de fundo, podemos afirmar que Miss Marple assume um papel quase secundário, no que à investigação criminal respeita, sendo o protagonismo dado ao inspetor Campbell (O Patriarca). A própria ação policial é deveras confusa e muito rebuscada. Está longe de ser um bom livro da série e da própria autora, visto que peca tanto pela ausência de envolvimento de Miss Marple como por uma ação muito pouco real. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Amor à Primeira Vista, de Domingos Amaral


Este foi o primeiro romance do autor, lançado em março de 1999. Torna-se interessante ler este livro para uma pessoa que conheceu a realidade que foi o escudo. Não se fala em euros, apenas em escudos.

Este livro tem dois níveis de intriga, protagonizados por um jornalista de um jornal diário. No primeiro nível, chamemos-lhe assim, o jornalista empreende aquilo que podemos chamar “jornalismo de investigação”, onde vai em busca do rasto de obras de arte traficadas e suspeitas de corrupção. No segundo nível, envereda mais pelo jornalismo social, em torno de uma apresentadora da TV e por quem se apaixona.


Se este última assume um papel mais cheio de clichés românticos, acaba por ser salva com um final inesperado da “história de amor”, em vez do “foram felizes para sempre” que muitas vezes povoa estas histórias. E acaba por estar intrinsecamente ligada ao nível da investigação da corrupção. Esse assume uma narrativa fantástica, com um final infelizmente previsível, mas ainda assim povoada com aspetos que nos fazem duvidar do rumo que tudo aquilo poderá vir a tomar. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Mistério nas Caraíbas, de Agatha Christie


Este é o sexto romance policial da autora que tem como protagonista Miss Marple. Foi publicado em 1964. Aqui encontramos Miss Marple num cenário paradísico – as Caraíbas – mas que a ela enfadam bastante, pelo seu estilo monótono.

Contudo, uma mancha agita a monotonia daquele lugar: um velho chato aparece morto. E aquilo a que muitos parece uma coisa natural, deixa Miss Marple de pé atrás. E as mortes sucedem-se. E as pessoas não são o que parecem. Adultério e crime povoam as páginas deste policial. Miss Marple será auxiliada por um intratável idoso: Mr. Rafiel, que se encontra bem perto das portas da morte. Este chama-lhe “Némesis”, em alusão à personagem mitológica que representa a vingança divina.


É sem dúvida um bom livro dentro da saga Miss Marple. Ao contrário dos dois policiais anteriores protagonizados por esta, em que assume um papel mais passivo, vemos aqui uma Miss Jane Marple mais enérgica e mais ativa na resolução do crime que a rodeia. Quase que como se o calor das Caraíbas a rejuvenescessem face à fria Inglaterra. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Cão de Sócrates, de António Ribeiro


Lançado em 2011, este é o primeiro livro de António Ribeiro pejado de humor. Tenta assumir uma crítica social à classe política dominante (socialista, sobretudo), tentando denegrir a imagem dos políticos mais à esquerda, sobretudo (Louçã e Jerónimo também são levemente mencionados), assim com o próprio Paulo Portas, aonde nunca falta o assunto "submarinos". Assim sendo, esta crítica favorece sobretudo o "laranja" da nossa política. Mas esta é apenas uma leitura e uma interpretação do livro em questão.

É uma narrativa presente, em que nos fala na primeira pessoa o cão que José Sócrates adotou para S. Bento. Traça as principais linhas históricas (menos boas, sobretudo) que teve principalmente o segundo mandado de JS. 

Por fim, podemos avaliar este livro como razoável. Na verdade, a parcialidade política do autor - ainda que involuntariamente manifestada - estraga um pouco o conteúdo humorístico que este livro tenta transmitir. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos


Lançado em 2009, é o sétimo livro do jornalista que virou escritor, sendo o quarto protagonizado por Tomás Noronha, o professor universitário que assume o papel principal em alguns dos romances de José Rodrigues dos Santos.

Desta feita, o autor aborda um tema muito presente no nosso mundo: o islamismo, o terrorismo, a jihad. A ação narrativa é bastante completa, em conversas entre as personagens que nos permitem ficar a conhecer melhor o mundo islâmico, sob o ponto de vista “ocidental” e do islão. Com efeito, esta é uma narrativa a dois tempos, que se encontra no final. Uma das ações é vivida pelo professor Tomás Noronha, recrutado por um organismo de combate ao terrorismo norte-americano. A outra é a história de um jovem egípcio, que se faz homem, e que vive os preceitos islâmicos a um ponto, chamemos-lhe assim, mais radical.


Não temos muitos termos comparativos, contudo, pessoalmente, parece-nos inferior em relação a outros livros do autor, nomeadamente ao “Sétimo Selo”, também protagonizado por Tomás Noronha.   

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Poesias Ortónimo, de Fernando Pessoa


Esta é uma coletânea e seleção de poemas de Fernando Pessoa – Ortónimo organizada pela Porto Editora. Tem presente poemas nas suas mais variadas formas, com métricas e rimas mais ou menos regulares, chegando a ter sonetos de Pessoa, como [súbita mão de algum fantasma oculto]. Traz muitos dos poemas que conhecemos deste poeta, como “Autopsicografia” ou “o menino de sua mãe”, e também algumas novidades. Poucas. A nosso ver, é uma seleção bastante pobre para um grupo que domina inclusivamente grande parte dos manuais escolares que por aí existem. Não vai mais além na poesia pessoana. Contudo, isto é apenas uma opinião. 

sábado, 23 de agosto de 2014

Crime nas Trevas, de Peter Blauner

 

Lançado pela primeira vez em 2006 nos Estados Unidos, foi lançado em Portugal em 2008.
É sem dúvida um policial, em que os erros de um inspetor vêm ao de cima vinte anos depois de ter sido cometido um crime e condenado um jovem pela sua execução. Jovem este que sempre disse estar inocente. Contudo, este crime, passado em 1983, deixou muitas pontas soltas, e a ação deste livro serve precisamente para atar as pontas que nesta altura ficaram desatadas. E irão descobrir-se coisas terríveis.

Este é um livro que nos faz refletir sobre o custo de querer ser um profissional (ou dar essa imagem), passando por cima de procedimentos, legais ou não, de outras pessoas e do seu bem-estar. Um bom nível de ação, a descoberta interior dos dois protagonistas (o inspetor e o putativo criminoso), adensa a trama. Não é o livro que nos faz perder o fôlego, contudo, desperta a curiosidade e vontade de o levar até ao fim. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Inferno no Vaticano, de Flávio Caputelo


Este é um livro que tem o Vaticano e o Papado como pano de fundo e foi lançado já neste ano de 2014. Podemos distinguir duas narrativas distintas: a do thriller em torno de uma importante descoberta na cidade do Vaticano, em que vão sendo assassinadas algumas pessoas de uma irmandade secreta, e o romance entre o inspetor Luís Borges e a simbologista Valéria Del Bosque.


Enquanto que a primeira narrativa é pontuada por um excelente discurso de suspense e intriga, isto é, um policial de alta qualidade, a parte romanesca assume a face mais pobre do livro do ponto de vista da imaginação e da qualidade da escrita. Se assumirmos que escrever é algo que precisa de prática, acreditamos que o autor tem um potencial a desenvolver neste campo, podendo vir a proporcionar ao público bons livros, melhores que este, num futuro.  

domingo, 20 de julho de 2014

Homens há muitos, de Francisco Salgueiro


Este livro vai presentemente na 7.ª edição, tendo sido lançado pela primeira vez em 2003. Foi o primeiro livro do autor, e tendo nós lido alguns dos seus últimos títulos (os dois “O Fim da Inocência”), conseguimos notar uma natural evolução da sua escrita.

Este é um romance narrado na primeira pessoa, o que, como já aludimos aqui várias vezes, preferimos, em virtude de criar uma maior envolvência com o leitor. Relata a história de uma amizade entre um homem e uma mulher, a entrar nos 30s. É assumidamente um romance romântico, como o próprio autor o define, tendo passagens oportuna e excessivamente lamechas. Contudo, e uma vez que todo o bom livro deve ter uma mensagem, a deste centra-se essencialmente no dilema que muitos encontramos dentro de nós entre fazermos da nossa vida aquilo que queremos ou aquilo que os outros querem que façamos dela.

Pode assumir-se como uma excelente companhia num dia de praia neste verão. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Seminarista, de Rubem Fonseca


Este é um livro muito rápido de se ler. o autor tem uma escrita fluente e escorreita, quase cinematográfica. A narração avança num modo bastante rápido. sendo este livro um romance policial, o autor fundiu na mesma personagem o protagonista, o detetive e o assassino, de uma forma completamente alternativa ao policial a que estamos habituados.

Contudo, não deixa o autor de pontuar o livro com excelentes notas de ironia, como esta:

"Podemos nos encontrar em outra parte. Para jantar, por exemplo. O que gosta você de comer?"
"Qualquer coisa."
"Conheço um restaurante que faz uma qualquer coisa deliciosa."
"Combinado", disse o tira.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Bichos, de Miguel Torga


“Bichos” é uma antologia de 14 contos da autoria de Adolfo Correia Rocha, que utilizou o pseudónimo literário de Miguel Torga. Lançado pela primeira vez em 1940, esta é uma obra que conta com inúmeras reedições. Encontramos aqui bichos que pensam e bichos que interagem com o bicho homem. Um cão de caça, um gato, uma mulher em trabalho de parto, um burro, um sapo, um galo, um pintassilgo, uma cigarra, um pardal, um pastor, um melro, um touro, um colecionador de insetos e um corvo: são estes os bichos!

A morte e um tema que atravessa toda a obra, nas suas mais variadas formas: o assassínio, a morte por divertimento, a morte por crueldade, a morte por piedade, a morte por abandono, o nado-morto. Torga presenteia-nos com um cenário serrano ao longo destes contos, pontuado com excelentes passagens, que nos fazem refletir, algumas, e outras com uma certa dimensão humorístico-irónica.

A gente também vive de boas palavras” (p. 49)

“- Há-de ficar para galo!
E a sujeita tinha palavra. Em Maio, por alturas da Ascensão, ao dar de caras com os irmãos degolados e depenados, ainda lhe tremeu a passarinha. Olha que brincadeira! Felizmente que a dona sabia distinguir o trigo do joio, e o deixava para semente... “ (p. 70)

A sua alma era muda como um túmulo” (p. 103)


A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. (…) Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre” (p. 134)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andersen


Hoje, no dia em que se assinalam os dez anos da morte de Sophia de Mello Breyner, prestamos-lhe homenagem a uma das maiores escritoras do séc. XX aqui, através deste livro que conjuga uma versatilidade da escrita. Foi publicado pela primeira vez em 1984, e vai neste momento na 23.ª edição, em várias editoras diferentes.

Este é um conjunto de cinco contos, protagonizados por uma Gata Borralheira diferente daquela que conhecemos do conto infantil. Uma mulher a lavar a loiça. Um jovem rapaz que quer ser um homem do mar. Lúcia, Joana e Hans.  E depois destes, há dois contos que conseguem ser protagonizados não por pessoas, mas por uma casa e por um lugar. Aqui se vê a versatilidade de Sophia e quão longe ela consegue ir no trabalho com as palavras e com a língua.

De todo o livro, destacamos a deliciosa e idílica descrição de uma casa junto à praia, assim como da própria praia:

"Para além das dunas a praia estende-se a todo o comprimento da costa e só o limite do olhar a limita. E, de norte a sul, ao longo das areias, correm três linhas escuras e grossas de algas, búzios e conchas, misturados com ouriços, pedaços de cortiça e pedaços de madeira que são restos de bóias e de barcos. Sobre a areia molhada que a maré-cheia alisou o poisar das gaivotas deixa finas pegadas triangulares, semelhantes à escrita de um tempo antiquíssimo." (p. 72)

domingo, 29 de junho de 2014

O espelho quebrado, de Agatha Christie


Publicado pela primeira vez em 1962, com o título “The Mirror Crack’d from Side to Side”, sendo o sexto livro protagonizado por Miss Marple, sem contar a coletânea de contos “Os treze enigmas”. Nesta obra são mencionados como parte do passado precisamente este último livro, assim como um outro, “Um corpo na biblioteca”. Acentua-se a velhice de Miss Marple, que como dissemos anteriormente, resulta de uma necessidade da autora envelhecer a personagem que já criou como sendo uma “senhora de idade”.

A participação de Miss Marple na ação é bastante reduzida, à semelhança do livro anterior (O Comboio das 16.50 - ver aqui). Contudo, talvez por a ação se desenrolar na sua aldeia, St. Mary Mead, podemos afirmar que ela funciona não só como a personagem para onde convergem todos os factos (sejam os do inspetor responsável, que vem aconselhar-se com ela, como os mexericos de aldeia), o que contribui, apesar de tudo, para uma maior presença sua no desenrolar da ação.


Talvez por termos vistos a adaptação deste episódio na série “Marple”, conseguimos captar os indícios que, desde que começa o livro, se adivinhavam no desenrolar da trama para a descoberta do verdadeiro culpado. O final é inesperado, sem dúvida, não tanto pela descoberta do assassino, mas tanto mais pela atitude (dolosa ou negligente?) que este toma. Um médio-alto livro dentro da série “Marple”. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Inês de Portugal, de João Aguiar

 

Esta obra de João Aguiar foi publicada pela primeira vez em 1997, e tinha como objetivo ser o guião do filme do mesmo nome, dirigido por José Carlos Oliveira.

A narrativa principal centra-se no período que media a chegada de Pero da Coelho e Álvaro Gonçalves, feitos prisioneiros, a Santarém, até à sua execução. Contudo, o livro mergulha constantemente em analepses, seja nas lembranças de D. Pedro, sobre as vivências que teve com Inês de Castro, seja a de seus membros da corte, que assistiram não só ao florescer da relação entre ambos, como também ao próprio julgamento e aplicação de pena de morte a Inês.

Um livro pequeno, que nota-se perfeitamente ser um roteiro cinematográfico. Poucos estados de alma e descrições sumárias. Narrativa avança em grande velocidade. Uso e abuso do discurso direto livre, em que não se utilizam travessões, apenas vírgulas, para as falas das personagens. Uma obra que retrata a mais célebre história de amor portuguesa, e que nos traz um D. Pedro mergulhado nas amarguras dos seus ódios.

sábado, 21 de junho de 2014

Uma Aventura na Casa da Lagoa


Este é o 56.º livro da coleção "Uma Aventura", de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, publicado no passado mês de fevereiro. Trazem-nos desta vez as autoras um cenário ficcionado, no qual os cinco protagonistas do costume se junta uma amiga nova: Glória. É ao seu pai que pertence a Casa da Lagoa.

Está construído o cenário: uma casa antiga, que pertenceu a um colecionador de antiguidades egípcias e gregas, rodeada por um bosque com um rio e uma cascata, que forma uma lagoa, onde é possível nadar. Desenrola se toda esta trama em torno da "herança" deixada por este colecionador.

É, dentro da coleção um livro que se pode considerar razoável. Existem outros livros com uma grande casa abandonada, e que terão melhor encanto (Serra da Estrela, Casa Assombrada ou Noite das Bruxas). Contudo, não deixa de possuir algum brilho próprio, nomeadamente a tentava de "infiltração" dos vilões entre os protagonistas.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Revolta, de Suzanne Collins


Este é o terceiro livro da trilogia “Jogos da Fome”. Foi lançado em agosto de 2010 com o título “Mockingjay”, tendo sido publicada a primeira edição portuguesa em novembro de 2011. Este livro lança-nos por uma verdadeira vertigem de emoções. Sendo narrado na primeira pessoa, como os anteriores, acompanhamos, uma vez mais, a construção psicológica (ou será a desconstrução?) da protagonista. Começa o livro num estado emocionalmente frágil, encontrando apenas no ódio e no rancor forma de se manter viva. E é interessante ver a sua evolução. Mesmo quando parece que já não é o seu motivo de ódio que a mantém viva, isso é-nos relembrado. O seu objetivo final é matar X. E é curioso o resultado final da guerra.

Há um grande tema neste livro, sobre o qual nos podemos debater: os efeitos do poder. Com efeito, mais que organização da resistência, ao lê-lo deveríamos sempre perguntar-nos: até onde estão os mais poderosos (do lado da resistência ou não) dispostos a ir para manterem o seu poder? Para se manterem influentes e poderosos? E de que modo os perdedores podem usar isso mais ou menos a seu favor?


Quanto à trilogia em si, ela remete-nos para a queda dos poderosos que ascendem e se mantêm no alto do poder com base na repressão e subjugação de uma franja alargada de pessoas. Com efeito, mesmo que subjugadas e controladas, há sempre meio de escapar à submissão e os veículos desta podem por vezes flexibiliza-la, ainda que de uma forma incipiente, é o suficiente para acender um rastilho.

sábado, 14 de junho de 2014

Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques


Publicado em 2012, este é um romance histórico que não gira em torno de uma personalidade ilustre, mas sim sobre um conjunto de colonos portugueses que emigraram de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes (Angola). A ação desenvolve-se em meados do séc. XIX, e apesar de não podermos considerar Benedita como protagonista, esta assume sem dúvida uma certa centralidade na obra.

Benedita Sepúlveda é uma personagem complexa, que vai de pouco mais que uma criança abandona à sua sorte, casada com um homem que a maltratava e violentava, evoluindo para uma quase mulher-fatal por quem os homens se apaixonam seduzindo e mantendo o interesse deles sem nunca realmente se comprometer com estes. Assume também por vezes uma personalidade calculista, que chega a ser um dos pilares para ser uma mulher de sucesso em África.

A obra é difícil entrada. As primeiras páginas são bastante difíceis de digerir. Da mesma forma, o final deixa bastante a desejar. Com efeito, a história fica no ar, possivelmente por ficar com a eventual hipótese de fazer uma continuação deste livro.

Há a destacar as notas de ironia existentes entre os brancos que se tentam fazer com que os seus costumes ocidentais vingarem numa África com uma cultura tão diferente, gerando momentos como este:


Dois criados pretos, espartilhados em cerimoniosas farpelas e luvas de uma alvura imaculada, circulavam em volta da mesa, apressados nos seus gestos lentos e um pouco perdidos nos rituais e etiquetas dos brancos.” (p. 85)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dia do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen


É o segundo livro de Sophia, publicado pela primeira vez em 1947. A obra está dividida em seis partes, que são compostas por poemas de vários tamanhos, desde um simples dístico ([Nós falamos dos deuses mas vós sois]), até poemas com estrofes de 21 versos. Encontramos tamvém aqui poemas compostos por estrofes desiguais, assim como alguns clássicos sonetos (Catalina, por exemplo).

Quanto aos temas, temos sempre presente o mar e a mitologia, com que Sophia sempre nos brinda nas suas obras. Aborda ainda muito a temática dos Descobrimentos Portugueses em poemas como “Navio Naufragado”. De realçar o poema “Abril”, quase como uma visão profética da revolução dos cravos:

ABRIL
Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mas leve que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,

Pálido de esperança.

sábado, 7 de junho de 2014

Uma Aventura no Sítio Errado, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada


Esta não foi uma leitura, mas sim uma re-leitura. Lançado em 2012, este é 54.º livro de uma das coleções que mais marcou várias gerações de jovens em Portugal. Ler este livro, e esta coleção no geral, em adulto, faz-nos não só voltar aos heróis dos nossos tempos, como também proporciona um relaxamento ao adormecer, quando já se lê na cama, antes de dormir (como é o caso).

Com um cenário ficcionado*, esta aventura traz-nos os protagonistas mergulhados num encontro exótico, na busca do produto de uma série de roubos. Não é o melhor dos livros da série, contudo tem uma boa narrativa e ação.
  

* O livro passa-se em duas quintas encostadas. A Quinta do Ramalhal e a Quinta do Roseiral. Apesar de existirem duas quintas com esse nome, estão geograficamente distantes, pelo que será uma mera coincidência.  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Comboio das 16.50h, de Agatha Christie


Este policial de Agatha Christie foi lançado em 1957, com o título original “4.50 from Paddington”. É o sexto livro protagonizado por Miss Marple, contudo é de notar o seu envelhecimento face a livros anteriores. Com efeito, a autora uma vez afirmou que foi um erro criar Miss Marple e Poirot já velhos, pois assim não envelheceram com ela. O primeiro romance protagonizado por Miss Marple houvera sido lançado em 1930 (27 anos antes), e assim a autora sentiu necessidade de torna Miss Marple mais debilitada.

Com efeito, Miss Marple assume-se como “cérebro” dos desenvolvimentos, contudo é uma sua amiga que coordena as coisas no terreno, Lucy Eyelesbarrow. Perde-se assim um pouco da importância de Marple no desenrolar da trama.

Quanto ao desenvolvimento da ação em si, quando converge para determinado desfecho, há uma reviravolta, aproximadamente a 3/4 do livro. Há uma segunda reviravolta no final, para o desenlace, desta feita protagonizada pela própria Miss Marple. É uma reviravolta grande de mais e bastante rebuscada. Existiam indícios, é certo, contudo estes poderiam ter sido mais desenvolvidos ao logo da teia narrativa, para não parece, ao final, que surgiram do ar.


Foi adaptado para a série Marple, relativamente fidedigno ao original, contudo, com uma Miss Marple mais interventiva, o que, sem dúvida, enriqueceu o episódio. 

domingo, 18 de maio de 2014

Jesuína Vitória - Uma mulher da Ribeira de Muge, de Manuel Evangelista


Este é o mais recente livro de Manuel Evangelista. Por norma, os seus livros que têm um cariz etnográfico, com base nas inúmeras recolhas que o autor fez junto de pessoas mais velhas que viveram na área de influência da Ribeira de Muge. As suas obras têm um qualquer fio condutor, seja cancioneiro, lendas, orações ou contos. Contudo, neste livro podemos encontrar um pouco de tudo isso, uma vez que desta feita, o fio condutor do livro é aquilo que em “cientifiquês” se chama “fonte oral”. 

O autor apresenta aqui uma compilação de poemas e contos, misturadas com prosas de “narrador presente” em que a patrona do livro conta não só a sua vida, como também a forma como viveu, desde os rituais diários àquilo que se comia. 

Tendo esta vivido parte considerável da sua vida numa das mais importantes casas agrícolas da Ribeira de Muge – a Ponte Velha, torna-se este livro de memórias também num documento único, que nos mostram como eram os rituais dos trabalhadores desta casa. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Folhas Caídas, de Almeida Garrett


É talvez a mais famosa antologia poética de Almeida Garrett. Foi publicada pela primeira vez em 1853, sendo a última obra publicada em vida do autor, que viria a falecer no ano seguinte. Esta publicação foi para o autor uma forma de ser ele próprio a escolher alguns poemas que escreveu ao longo da vida, para que outro não o fizesse após a sua morte, conforme nos diz na “advertência” que abre este livro. A sua própria organização e publicação no “Outono da Vida” remete para o título: Folhas Caídas, que caem no outono.


É constituída a obra por uma série de poemas, marcadamente românticos, na aceção mais sentimental, tanto pelo lado da paixão romântica (“Rosa – um suspiro”) ou fatal (“Víbora”). Ler todo este livro, que nem é uma antologia tão grande quanto isso, leva-nos a conhecer toda a obra, em detrimento daqueles poemas que normalmente conhecemos da escola, como “A Débil” ou “Este Inferno de Amar”. 

domingo, 4 de maio de 2014

Os Pioneiros, de Luísa Beltrão


Publicado pela primeira vez há 20 anos, em 1994, pela Editorial Presença, com este livro inicia-se uma tetralogia da autoria de Luísa Beltrão. Tem como pano de fundo a história de uma família, desde que um dos seus elementos luta para enriquecer até ao inicío da geração dos seus filhos.

Mostra-nos como se uma fortuna construída com trabalho se pode destruir rapidamente. De como os homens são breves, e são os seus próprios piores inimigos. Ensina-mos também que o verdadeiro valor da vida e aquele que nos faz felizes está presente nas pequenas coisas, ou por outra, está longe daquilo que o dinheiro pode comprar.

O livro não tem propriamente um protagonista. Ou por outra, o protagonista vai variando ao longo da narrativa, isto é, aquele que protagoniza determinado capítulo, passa a personagem secundária no capítulo seguinte, ou desaparece na trama, passando o protagonismo a quem era secundário ou surge de novo.

São seis capítulos, que iniciam cada um com uma carta da “Tia Graça”, que virá, possivelmente, a protagonizar qualquer outro momento num dos livros seguintes da tetralogia. Neste, ela fala dos protagonistas em questão, do que ouviu ou conheceu dele. Depois há todo o desenrolar da teia narrativa, em que a autora constrói uma escrita fluente e interessante, por vezes pontuada com excelentes notas de ironia, como as seguintes:

O tio Luiz era um homem muito bem parecido, loiro e com um ar muito fino. Adorava a mulher, aliaz todos os Teixeiras sempre adoraram as mulheres, embora fossem dados às aventuras fora de casa. Mas o tio Luiz talvez fosse o menos estroina, por isso deixou fortuna, sempre foi bom administrador. Casou com a tia Zulmira, que era uma senhora linda, poetiza, sempre muito janota e que gostava de ser admirada pelos homens. Deizem que até era um pouco leviana, mas eu não gosto de dizer mal de ninguém.” (p. 149) – de uma carta da Tia Graça

Ana tivera que pedir à vizinha da frente, (…), a viver sozinha no seu solar, que albergasse o secretário Anníbal durante um mês, (…). A senhora Dona Anástácia, solteira cinquentona, de peito farto e bigode escuro, levantara dificuldades, «parece mal coabitar com um rapaz tão jovem, o que dirá o povo!». Ana, diplomática, convencera-a que a sua virtude estava acima de qualquer suspeita e a senhora dona Anastácia aceita alvoraçada.” (p. 171)

Partiram em lua-de-mel para a quinta do noivo, que estava preocupado com umas vacas mal paridas. Não durou a estada mais de uma semana; Laura, na sua linguagem provocadora, descrevera à irmã, curiosa, dos pormenores nupciais, «não me importo que ele faça de boi e eu de vaca, até nem me importava de estar sempre nisso, agora passar o tempo a ouvir falar de tetas infetadas e de vitelos desmedrados, Deus me livre!». Nunca mais foi ao Alentejo. E costuma dizer, perante o ar escandalizado da irmã, quando o marido voltava das propriedades, «la vem o boi à vaca, vai ser um regalo!». E o alentejano ria, ria.” (p. 206)


Por outro lado, traz-nos também uma viagem às vivências da vida privada dos burgueses, ou da baixa nobreza, durante o período da monarquia constitucional. Por fim, podemos afirmar que estamos perante uma obra que, mais que a história de uma família, consegue ser, em parte, também um romance histórico. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

"O dia da Liberdade", de José Jorge Letria



Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afecto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo tecto.

Salgueiro Maia: O Rosto da Liberdade


Esta é uma Banda Desenhada lançada pelo jornal "O Ribatejo", aquando das comemorações dos 25 anos do 25 de abril. Dá como principal rosto da revolução de 1974 o Capitão da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, Fernando Salgueiro Maia. 

Se a BD constitui um género literário autónomo dos três clássicos que conhecemos (prosa, lírica e drama), podemos considerar que este livro conseguiu pegar convenientemente da figura de Salgueiro Maia, e enquadrá-la convenientemente no género literário que é a Banda Desenhada. Com efeito, vivemos nesta obra momento a momento, minuto a minuto aquela noite e aquele dia, desde a saída da EPC até à rendição de Marcello Caetano. 

Foi sem dúvida uma excelente iniciativa d' "O Ribatejo" a publicação desta BD sobre o 25 de abril e Salgueiro Maia. Uma mais que merecida homenagem ao homem que deu a cara por uma revolução, por um ideal, para acabar com "o estado a que chegámos", que, mesmo levando a sua avante, sempre foi ostracizado e menosprezado pelas elites militares e políticas do país que defendeu. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

País de Abril, de Manuel Alegre


Trata-se de uma antologia de poemas escritos por Manuel Alegre, alguns antes da revolução, outros no ímpeto revolucionário ou até em comemorações de aniversários da revolução de abril, mas já todos eles publicados anteriormente. Os dois primeiros blocos foram inclusivamente censurados ainda durante o tempo do Estado Novo.

São poemas na sua grande maioria curtos, e que nos trazem o país oprimido pela ausência de liberdade de expressão e os ventos da guerra (como a famosíssima “Trova do Vento que Passa”). De todos, talvez nos mereça especial destaque, neste ano que se comemoram os 40 anos desta revolução, o último poema da obra, publicado em 1992 no Jornal de Letras, e dedicado a Salgueiro Maia, que reproduzimos abaixo.

Ficaste na pureza inicial
Do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
Havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
Para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho incosquistado
Havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
Dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém

Trazendo a espada e a flor da liberdade.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A História me Absolverá, de Fidel Castro


Face ao seu autor, poderia supor-se que este seria um livro de estratégia política, de ideologia comunista ou até um relato das mais variadas tomadas de posição de Fidel. Contudo, é algo tão simples como o texto expositivo-argumentativo que Fidel Castro utilizou na barra do tribunal em sua própria defesa, aquando do julgamento da insurreição que promoveu a 26 de julho de 1953, contra o regime ditatorial cubano de Flugêncio Baptista, que acabaria por derrotar apenas em 1959.

O discurso é altamente interventivo e desmonta o regime que então vigorava em Cuba, e de como poucos abusavam de muito. Com efeito, através de Fidel, sabemos que a marinha é o ramo das forças armadas que o regime que vigorava menos dominava (e talvez um dos mais importantes para um país formado por ilhas), e que durante a insurreição, houve enfermeiros a distribuir armas. Ainda sobre as forças armadas, denuncia os abusos que eram cometidos pelos oficiais sobre os soldados, obrigando-os a prestarem-lhes serviços pessoais, como motorista e guarda-costas, afirmando inclusivamente que “O interesse de Batista não reside em tomar conta do Exército, mas em que o Exército tome conta dele!” (p. 46). Contudo, nunca deixa de realçar ao longo de todo o discurso a vontade e a força do povo cubano, utilizando até uma expressão, em jeito de conclusão “é assim que o povo luta quando quer conquistar a sua liberdade; atiram pedras aos aviões e voltam tanques com as mãos”. (p. 49).

No quarto capítulo Fidel refere quem os apoiou e como pretende implementar e executar as suas ideias, através de cinco leis revolucionárias. Ao lermos esta parte, a qualquer português poderá dar uma quase sensação de “dejá-vu”, visto que os problemas que aquela Cuba atravessava à época são os nossos atuais, no nosso Portugal, nomeadamente problemas sociais, industriais e de educação.

No quinto capítulo, são relatadas as atrocidades cometidas pela defesa do regime aos revolucionários, com uma exaustiva descrição dos assassinatos, mutilações e torturas a que foram submetidos alguns elementos. No sétimo capítulo, Fidel desmonta o irrisório da constituição de Cuba: o presidente é nomeado pelo conselho de ministros e o conselho de ministros é nomeado pelo presidente.

Este é sem dúvida um documento que revela sobretudo coragem de enfrentar o regime vigente, seja de que forma. Fidel nunca hesita em chamar “os bois pelos nomes”, sobretudo no que toca a Fulgêncio Batista, dizendo já nas suas alegações finais que “É compreensível que os homens honestos sejam mortos ou presos numa República em que o Presidente é um criminoso e um ladrão.” (p. 125-126). 

domingo, 20 de abril de 2014

O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro


Através de pequenos capítulos, este livro narra a vida e as tragédias de uma família. Cada capítulo corresponde a um episódio, sendo estes frequentemente fechados, ou seja, há uma narrativa com princípio meio e fim em cada capítulo. Contudo, as pequenas farripas libertadas de cada teia de ação irão entrelaçar-se nos capítulos finais.

Este não é, definitivamente, um livro para ler levemente. Com efeito, os capítulos oscilam no tempo, situando-se entre o pós primeira Guerra Mundial e o início dos anos 90. E tão depressa estamos em Portugal, como em África, Áustria ou Buenos Aires. O autor tem uma escrita escorreita e razoavelmente refinada. Usa e abusa de duas figuras de estilo: enumeração e repetição, como podemos ver pelo excerto abaixo:


Depois de novo o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Até que, com a mão direita, procurou o ralo por baixo da nuca e destapou-o. O corpo começou a emergir lentamente. Primeiro os olhos. A testa. Depois a boca. O queixo. As orelhas. Os mamilos. A barriga. Os pés. As pernas. Os ombros. Os braços. As mãos. Os dedos. Toda.” (p.129)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Mar Novo, de Sophia de Mello Breyner Andersen


Mar Novo é o quinto livro de poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen, publicado pela primeira vez em 1958. Os poemas que constituem a obra são de forma irregular, podendo assumir, entre outros, a forma de sonetos (Corpo), quadras (Lusitânia) ou simples dísticos (Deus é no dia). Com uma temática recorrente no mar (Longe o marinheiro tem/ uma serena praia de mãos puras) e na mitologia (soneto “as três parcas”), cremos ser com estes dois aspetos que se pode definir esta obra.

Não deixa contudo de ser curioso que um dos títulos de um dos poemas seja “Liberdade”, atendendo ao período de repressão e censura que se vivia em Portugal à época da publicação do livro. O poema em si, a nosso ver, nada tem que pudesse despertar ímpetos mais revolucionários. Talvez por isso tenha sido deixado passar, pois assim poderia contribuir-se para a chamada “aparente liberdade” que era preciso que o regime soubesse dar.

Cremos ainda poder dizer que há um lamento, com um roçar da ironia, feito por Sophia, pelo estado da poesia, onde nos brinda com a seguinte quadra:

A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou
Que alta noite a encontrei perdida

Num bordel onde um morto a assassinou.