"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
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sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril





Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

domingo, 29 de março de 2015

O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andersen


Publicado pela primeira vez em 1961 com o nome “O Cristo Cigano ou a Lenda do Cristo Cachorro”, vai atualmente apenas na 5.ª edição, uma vez que a poeta, durante muitos anos, achou esta uma obra menor da sua produção, e a foi negligenciando.

É um livro poema que se lê de um trago. Ou por outra, saboreia-se de um trago. Porque poesia e a poesia de Sophia não se leem – saboreiam-se. Talvez seja a mais pequena obra da poeta – apenas onze poemas, cujo maior tem 14 estrofes, e a sua grande maioria terá quatro ou cinco.

Uma obra pequena ao mesmo tempo que é uma grande obra que não se consegue descrever ou opinar. Quem a quiser conhecer, terá de a ler, num dia em que se sinta com um espírito aberto à manifestação do eu poético que emana desta obra.

VII
TREVAS
O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andersen


Hoje, no dia em que se assinalam os dez anos da morte de Sophia de Mello Breyner, prestamos-lhe homenagem a uma das maiores escritoras do séc. XX aqui, através deste livro que conjuga uma versatilidade da escrita. Foi publicado pela primeira vez em 1984, e vai neste momento na 23.ª edição, em várias editoras diferentes.

Este é um conjunto de cinco contos, protagonizados por uma Gata Borralheira diferente daquela que conhecemos do conto infantil. Uma mulher a lavar a loiça. Um jovem rapaz que quer ser um homem do mar. Lúcia, Joana e Hans.  E depois destes, há dois contos que conseguem ser protagonizados não por pessoas, mas por uma casa e por um lugar. Aqui se vê a versatilidade de Sophia e quão longe ela consegue ir no trabalho com as palavras e com a língua.

De todo o livro, destacamos a deliciosa e idílica descrição de uma casa junto à praia, assim como da própria praia:

"Para além das dunas a praia estende-se a todo o comprimento da costa e só o limite do olhar a limita. E, de norte a sul, ao longo das areias, correm três linhas escuras e grossas de algas, búzios e conchas, misturados com ouriços, pedaços de cortiça e pedaços de madeira que são restos de bóias e de barcos. Sobre a areia molhada que a maré-cheia alisou o poisar das gaivotas deixa finas pegadas triangulares, semelhantes à escrita de um tempo antiquíssimo." (p. 72)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dia do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen


É o segundo livro de Sophia, publicado pela primeira vez em 1947. A obra está dividida em seis partes, que são compostas por poemas de vários tamanhos, desde um simples dístico ([Nós falamos dos deuses mas vós sois]), até poemas com estrofes de 21 versos. Encontramos tamvém aqui poemas compostos por estrofes desiguais, assim como alguns clássicos sonetos (Catalina, por exemplo).

Quanto aos temas, temos sempre presente o mar e a mitologia, com que Sophia sempre nos brinda nas suas obras. Aborda ainda muito a temática dos Descobrimentos Portugueses em poemas como “Navio Naufragado”. De realçar o poema “Abril”, quase como uma visão profética da revolução dos cravos:

ABRIL
Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mas leve que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,

Pálido de esperança.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Mar Novo, de Sophia de Mello Breyner Andersen


Mar Novo é o quinto livro de poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen, publicado pela primeira vez em 1958. Os poemas que constituem a obra são de forma irregular, podendo assumir, entre outros, a forma de sonetos (Corpo), quadras (Lusitânia) ou simples dísticos (Deus é no dia). Com uma temática recorrente no mar (Longe o marinheiro tem/ uma serena praia de mãos puras) e na mitologia (soneto “as três parcas”), cremos ser com estes dois aspetos que se pode definir esta obra.

Não deixa contudo de ser curioso que um dos títulos de um dos poemas seja “Liberdade”, atendendo ao período de repressão e censura que se vivia em Portugal à época da publicação do livro. O poema em si, a nosso ver, nada tem que pudesse despertar ímpetos mais revolucionários. Talvez por isso tenha sido deixado passar, pois assim poderia contribuir-se para a chamada “aparente liberdade” que era preciso que o regime soubesse dar.

Cremos ainda poder dizer que há um lamento, com um roçar da ironia, feito por Sophia, pelo estado da poesia, onde nos brinda com a seguinte quadra:

A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou
Que alta noite a encontrei perdida

Num bordel onde um morto a assassinou.