"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

domingo, 4 de maio de 2014

Os Pioneiros, de Luísa Beltrão


Publicado pela primeira vez há 20 anos, em 1994, pela Editorial Presença, com este livro inicia-se uma tetralogia da autoria de Luísa Beltrão. Tem como pano de fundo a história de uma família, desde que um dos seus elementos luta para enriquecer até ao inicío da geração dos seus filhos.

Mostra-nos como se uma fortuna construída com trabalho se pode destruir rapidamente. De como os homens são breves, e são os seus próprios piores inimigos. Ensina-mos também que o verdadeiro valor da vida e aquele que nos faz felizes está presente nas pequenas coisas, ou por outra, está longe daquilo que o dinheiro pode comprar.

O livro não tem propriamente um protagonista. Ou por outra, o protagonista vai variando ao longo da narrativa, isto é, aquele que protagoniza determinado capítulo, passa a personagem secundária no capítulo seguinte, ou desaparece na trama, passando o protagonismo a quem era secundário ou surge de novo.

São seis capítulos, que iniciam cada um com uma carta da “Tia Graça”, que virá, possivelmente, a protagonizar qualquer outro momento num dos livros seguintes da tetralogia. Neste, ela fala dos protagonistas em questão, do que ouviu ou conheceu dele. Depois há todo o desenrolar da teia narrativa, em que a autora constrói uma escrita fluente e interessante, por vezes pontuada com excelentes notas de ironia, como as seguintes:

O tio Luiz era um homem muito bem parecido, loiro e com um ar muito fino. Adorava a mulher, aliaz todos os Teixeiras sempre adoraram as mulheres, embora fossem dados às aventuras fora de casa. Mas o tio Luiz talvez fosse o menos estroina, por isso deixou fortuna, sempre foi bom administrador. Casou com a tia Zulmira, que era uma senhora linda, poetiza, sempre muito janota e que gostava de ser admirada pelos homens. Deizem que até era um pouco leviana, mas eu não gosto de dizer mal de ninguém.” (p. 149) – de uma carta da Tia Graça

Ana tivera que pedir à vizinha da frente, (…), a viver sozinha no seu solar, que albergasse o secretário Anníbal durante um mês, (…). A senhora Dona Anástácia, solteira cinquentona, de peito farto e bigode escuro, levantara dificuldades, «parece mal coabitar com um rapaz tão jovem, o que dirá o povo!». Ana, diplomática, convencera-a que a sua virtude estava acima de qualquer suspeita e a senhora dona Anastácia aceita alvoraçada.” (p. 171)

Partiram em lua-de-mel para a quinta do noivo, que estava preocupado com umas vacas mal paridas. Não durou a estada mais de uma semana; Laura, na sua linguagem provocadora, descrevera à irmã, curiosa, dos pormenores nupciais, «não me importo que ele faça de boi e eu de vaca, até nem me importava de estar sempre nisso, agora passar o tempo a ouvir falar de tetas infetadas e de vitelos desmedrados, Deus me livre!». Nunca mais foi ao Alentejo. E costuma dizer, perante o ar escandalizado da irmã, quando o marido voltava das propriedades, «la vem o boi à vaca, vai ser um regalo!». E o alentejano ria, ria.” (p. 206)


Por outro lado, traz-nos também uma viagem às vivências da vida privada dos burgueses, ou da baixa nobreza, durante o período da monarquia constitucional. Por fim, podemos afirmar que estamos perante uma obra que, mais que a história de uma família, consegue ser, em parte, também um romance histórico. 

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