"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Estranho ano de Vanessa M, de Filipa Fonseca Silva


A autora deste livro já esteve em alguns tops mundiais, nomeadamente o dos livros mais vendidos do Amazon (creio eu!). E a minha opinião sobre a qualidade deste género de obras, por norma, não tende a ser simpática (veja-se o caso d’ “As cinquenta sombras”). Contudo, como isto dos livros não é matemático, e “O Estranho ano de Vanessa M” é um livro que, pessoalmente, acho que merece verdadeiramente ser lido.

Um bom livro, sobretudo quando se trata de literatura sobre o quotidiano, deve sempre tentar transmitir uma mensagem, ou seja, para além de proporcionar o prazer de ler e de nos evadirmos dos nossos próprios problemas, dar-nos também a possibilidade de pensar naquilo que queremos para a nossa vida.

E Filipa Fonseca Silva traz-nos uma Vanessa na casa dos trinta, casada, com uma filha, nem emprego com um chefe incompetente e que detesta. E vive infeliz, porque sempre viveu a vida que os outros queriam ou esperavam que ela tivesse, em detrimento daquilo que gostava e queria fazer. E este livro é precisamente isto: a busca pela felicidade, o 'grito do Ipiranga' para a descoberta de si próprio e do que quer fazer da sua vida. E sobretudo a descoberta que só conseguimos ser felizes quando nos aceitamos e quando mandamos as convenções sociais 'à fava'.

Poucas São as personagens que têm nome: São a mãe, a filha, a tia, .... 
E ainda Bem que assim é! 

Com uma escrita escorreita, FFS mostra-nos tudo isto, intercalando a ação narrativa com momentos de reflexão e humorísticos, advenientes da tia, uma hippie que fez aquilo que muitos gostariam de ter feito: viveu a sua vida sem se importar com o que os outros pudessem pensar. 


Deixa-se aqui alguns excertos desta nova obra:

Na nossa idade, já ninguém vive com ninguém, filha. (…) Nã… cada um na sua casinha e, depois, lá nos vamos divertindo quando nos apetece ou quanto as dores o permitem” (p. 27)

“O problema das relações é que os homens esperem que as mulheres lhes dêm instruções e as mulheres esperam que os homens lhes leiam os pensamentos” (p. 61)

“Os dias, as semanas e os meses eram indistinguíveis e os anos pautados pelos mesmos momentos: trabalho, férias, trabalho, Natal, novo ano, desejos e resoluções abafadas por mais trabalho, outra vez férias e assim sucessivamente. Dei por mim com trinta e tal anos e um futuro de monotonia pela frente. Dei por mim infeliz, reprimida por um chefe tirânico, incompetente e que consegue levar as pessoas à loucura.” (p. 164)


Este livro não é editado por nenhuma editora, pelo que se pode dar os parabéns à autora por ter a coragem de se lançar sozinha nesta aventura.

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