"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

sábado, 11 de outubro de 2014

Ursamaior, de Mário Cláudio


Este romance foi lançado em 2000. O seu título é uma analogia aos seus protagonistas: são as sete estrelas da constelação da Ursa Maior. São sete homens que, por circunstâncias várias, vão parar à prisão.

O livro pode ser separado em duas partes, ainda que estas estejam intercaladas. A primeira com um narrador ausente e a segunda narrada na primeira pessoa, alternadamente entre os sete protagonistas. Esta última torna-se bastante interessante, na medida em que estes descrevem as suas vidas antes de ir ter à prisão e o modo como lá foram parar. Quanto à parte de narrador ausente, assume-se a nosso ver, excessivamente descritiva.


Quanto à ação em si, não é um livro que possamos chamar “em movimento”. Com efeito, as personagens apenas mergulham em breves analepses para contar a sua história. E há um ou outro episódio passado na cadeia. Nada que nos faça ansiar pelo fim, para descobrir como acaba, por na verdade, não há nada começado para se acabar. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crime no Hotel Bertram


Este policial de Agatha Christie, publicado pela primeira vez em 1965, é o 9.º da série protagonizado pela solteirona Miss Marple. Encontramos Miss Marple mais debilitada do que a encontramos nas Caraíbas, no volume anterior. Aqui foram-lhe oferecidos alguns dias pela esposa do seu sobrinho num hotel londrino – O Hotel Bertram. Sobrinho este que nos primeiros volumes da série Marple era um jovem escritor com os seus primeiros livros, e que aqui vamos encontrar já na casa dos 50s, como um escritor de sucesso. Por esta forma, podemos ver o quão tempo passou desde o início da série.

Tendo este hotel como pano de fundo, podemos afirmar que Miss Marple assume um papel quase secundário, no que à investigação criminal respeita, sendo o protagonismo dado ao inspetor Campbell (O Patriarca). A própria ação policial é deveras confusa e muito rebuscada. Está longe de ser um bom livro da série e da própria autora, visto que peca tanto pela ausência de envolvimento de Miss Marple como por uma ação muito pouco real. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Amor à Primeira Vista, de Domingos Amaral


Este foi o primeiro romance do autor, lançado em março de 1999. Torna-se interessante ler este livro para uma pessoa que conheceu a realidade que foi o escudo. Não se fala em euros, apenas em escudos.

Este livro tem dois níveis de intriga, protagonizados por um jornalista de um jornal diário. No primeiro nível, chamemos-lhe assim, o jornalista empreende aquilo que podemos chamar “jornalismo de investigação”, onde vai em busca do rasto de obras de arte traficadas e suspeitas de corrupção. No segundo nível, envereda mais pelo jornalismo social, em torno de uma apresentadora da TV e por quem se apaixona.


Se este última assume um papel mais cheio de clichés românticos, acaba por ser salva com um final inesperado da “história de amor”, em vez do “foram felizes para sempre” que muitas vezes povoa estas histórias. E acaba por estar intrinsecamente ligada ao nível da investigação da corrupção. Esse assume uma narrativa fantástica, com um final infelizmente previsível, mas ainda assim povoada com aspetos que nos fazem duvidar do rumo que tudo aquilo poderá vir a tomar. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Mistério nas Caraíbas, de Agatha Christie


Este é o sexto romance policial da autora que tem como protagonista Miss Marple. Foi publicado em 1964. Aqui encontramos Miss Marple num cenário paradísico – as Caraíbas – mas que a ela enfadam bastante, pelo seu estilo monótono.

Contudo, uma mancha agita a monotonia daquele lugar: um velho chato aparece morto. E aquilo a que muitos parece uma coisa natural, deixa Miss Marple de pé atrás. E as mortes sucedem-se. E as pessoas não são o que parecem. Adultério e crime povoam as páginas deste policial. Miss Marple será auxiliada por um intratável idoso: Mr. Rafiel, que se encontra bem perto das portas da morte. Este chama-lhe “Némesis”, em alusão à personagem mitológica que representa a vingança divina.


É sem dúvida um bom livro dentro da saga Miss Marple. Ao contrário dos dois policiais anteriores protagonizados por esta, em que assume um papel mais passivo, vemos aqui uma Miss Jane Marple mais enérgica e mais ativa na resolução do crime que a rodeia. Quase que como se o calor das Caraíbas a rejuvenescessem face à fria Inglaterra. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Cão de Sócrates, de António Ribeiro


Lançado em 2011, este é o primeiro livro de António Ribeiro pejado de humor. Tenta assumir uma crítica social à classe política dominante (socialista, sobretudo), tentando denegrir a imagem dos políticos mais à esquerda, sobretudo (Louçã e Jerónimo também são levemente mencionados), assim com o próprio Paulo Portas, aonde nunca falta o assunto "submarinos". Assim sendo, esta crítica favorece sobretudo o "laranja" da nossa política. Mas esta é apenas uma leitura e uma interpretação do livro em questão.

É uma narrativa presente, em que nos fala na primeira pessoa o cão que José Sócrates adotou para S. Bento. Traça as principais linhas históricas (menos boas, sobretudo) que teve principalmente o segundo mandado de JS. 

Por fim, podemos avaliar este livro como razoável. Na verdade, a parcialidade política do autor - ainda que involuntariamente manifestada - estraga um pouco o conteúdo humorístico que este livro tenta transmitir. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos


Lançado em 2009, é o sétimo livro do jornalista que virou escritor, sendo o quarto protagonizado por Tomás Noronha, o professor universitário que assume o papel principal em alguns dos romances de José Rodrigues dos Santos.

Desta feita, o autor aborda um tema muito presente no nosso mundo: o islamismo, o terrorismo, a jihad. A ação narrativa é bastante completa, em conversas entre as personagens que nos permitem ficar a conhecer melhor o mundo islâmico, sob o ponto de vista “ocidental” e do islão. Com efeito, esta é uma narrativa a dois tempos, que se encontra no final. Uma das ações é vivida pelo professor Tomás Noronha, recrutado por um organismo de combate ao terrorismo norte-americano. A outra é a história de um jovem egípcio, que se faz homem, e que vive os preceitos islâmicos a um ponto, chamemos-lhe assim, mais radical.


Não temos muitos termos comparativos, contudo, pessoalmente, parece-nos inferior em relação a outros livros do autor, nomeadamente ao “Sétimo Selo”, também protagonizado por Tomás Noronha.   

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Poesias Ortónimo, de Fernando Pessoa


Esta é uma coletânea e seleção de poemas de Fernando Pessoa – Ortónimo organizada pela Porto Editora. Tem presente poemas nas suas mais variadas formas, com métricas e rimas mais ou menos regulares, chegando a ter sonetos de Pessoa, como [súbita mão de algum fantasma oculto]. Traz muitos dos poemas que conhecemos deste poeta, como “Autopsicografia” ou “o menino de sua mãe”, e também algumas novidades. Poucas. A nosso ver, é uma seleção bastante pobre para um grupo que domina inclusivamente grande parte dos manuais escolares que por aí existem. Não vai mais além na poesia pessoana. Contudo, isto é apenas uma opinião.