"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Trilogia “Crónica de Santo Adriano”, de João Aguiar


“Crónica de Santo Adriano” foi o nome que João Aguiar deu a um conjunto de três livros seus, sequenciais cronologicamente falando, apenas no seu foro íntimo, segundo palavras do próprio. São eles “Os comedores de Pérolas” (1992), “O Dragão de Fumo” (1998) e “Catedral Verde” (2000). Tem como protagonista Adriano Carreira, jornalista e escritor, marcado pela vivência com a cultura macaense e pela sua ligação a Portugal. Este é um dos panos de fundo das obras: os momentos pré-passagem de Macau, o Dragão de Fumo, ao domínio chinês.

Se os dois primeiros livros se passam em Macau, entre aventuras e desventuras de Adriano Carreira e da sua filha, o terceiro passa-se em Portugal, e “corre” no momento em que é feita a transferência do território para a China. A obra é pontuada por uma enormidade de pormenores que revelam um verdadeiro conhecimento por parte do autor da cultura e da vivência macaense. Enquanto que os dois primeiros livros são obras de ação, isto é, existe uma intriga, quase que policial, que envolve toda a narrativa, “Catedral Verde” é essencialmente uma busca pela própria descoberta do protagonista. Com efeito, “mergulhamos” dentro deste, de uma forma bastante singular, acentuada pelo facto deste último volume ser narrado na primeira pessoa.


É uma obra que se pretende devorar. À medida que se vai lendo, quer saber-se sempre mais e ir mais além. Sem dúvida uma das melhores leituras dos últimos tempos. 

sábado, 22 de novembro de 2014

Jogo de Espelhos, de Agatha Christie


Publicado em 1952 com o título "They do it with mirrors", "Jogo de Espelhos" é o 12.º livro da série "Marple", da autoria de Agatha Christie. 

Um entrançado interessante, em que Miss Marple, ao contrário do quem vem acontecendo em alguns livros da saga, assume um papel ativo na investigação do homicídio, em casa de uma grande amiga de infância. Uma família de pessoas onde existem mais ressentimentos e ódios entre todos, do que espírito de união familiar, tendo como "cereja no topo do bolo" a existência de um asilo para jovens deliquentes, que muitos querem usar como bode expiatório do crime cometido.

Não será o melhor livro da saga, mas sem dúvida que é um daqueles a não perder. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Virgem, de Luís Miguel Rocha


Sendo um dos autores portugueses que mais aprecio, este é um livro "fora do baralho" do que costumam ser as suas obras. Segundo uma nota do próprio autor no final do livro, o primeiro capítulo deste foi escrito aos seus 16 anos, inspirado e embebido no estilo de José Saramago. 

Um narrador ausente, mas em constante diálogo com o leitor, cativa-o de incessante forma a conhecer melhor a história e as estórias dos Silveira e dos "Condes". Mergulhando a narrativa em constantes analepses, trazem-nos ao presente narrativo as circunstâncias que justificam determinado acontecimento. E subitamente o livro termina. Com bastantes "pontas soltas", e com a certeza que esta história terá uma continuação. Que esperemos que nos chegue brevemente... 

Este livro é a prova da versatilidade e do génio criativo que é Luís Miguel Rocha. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

D. Maria a empregada de Cavaco, de António Ribeiro


Lançado em março de 2012, este é o segundo livro de António Ribeiro com a crítia a uma personagem política portuguesa. O seu alvo foi nada mais nada menos que o próprio presidente da República, Cavaco Silva. É uma narrativa presente, em que D. Maria, a cozinheira e empregada de limpeza do Palácio de Belém, nos trás o dia-a-dia de um presidente (im)parcialmente político, pelas próprias descrições que esta faz dele. Com uma admiração inata por Cavaco Silva, D. Maria traz-nos uma rotina diária pontuada de aspetos humorísticos, em que as maiores gaffes de Cavaco (como as suas duas reformas que não lhe chegam para as despesas) são aqui amplamente dissecadas. 

domingo, 19 de outubro de 2014

Zorro – o começo da lenda, de Isabel Allende


Quando se começa a ler um livro, as expectativas sobre ele podem ser maiores ou menores. Sobre o Zorro, não tínhamos uma expectativa muito além. Sabíamos que Allende escreve bem (temos a experiência da trilogia d’ “As Aventuras da Águia e do Jaguar”). “Zorro – o começo da lenda”, sendo a oferta de uma editora por uma outra compra, pensamos que seria um livro pouco interessante. Pensamento mais errado.

Lançado em 2005, este é o 13.º romance da autora. São 443 páginas de uma escrita arrebatadora e fluída. Apesar de não ser um romance que procura atingir um ponto alto – um clímax, deparamo-nos sim com pequenas narrativas de encaixe umas nas outras, os episódios que levaram à transformação de Dom Diego de La Vega no Zorro. Tendo pegado numa personagem com oitenta anos, Allende conseguiu reinventar a lacuna biográfica desta: o período que media o conhecimento dos seus pais até ao seu regresso de Espanha, onde recebeu uma educação diferente da que teria na Califórnia espanhola.

Narrado na primeira pessoa por uma das personagens, que apenas na última parte se revela, passados 25 anos do regresso à Califórnia. Um relato pontuado por um bom humor incessante de passagens tão deliciosas quanto esta:

Durante várias semanas no mar alto os rapazes nunca dispuseram de um momento de privacidade; até as funções mais elementares eram levadas a cabo à vista dos outros num balde, se havia ondulação, ou, em caso contrário, sentados numa tábua com um buraco diretamente sobre o mar. Ninguém sabe como se arranjou a púdica filha do auditor, porque nunca a viram despejar um bacio. Os marinheiros trocavam apostas a esse respeito, primeiro mortos de riso e depois assustados, porque uma obstipação tão perseverante parecia coisa de bruxaria” (p. 120)


Um romance que mais que nos transportar para o mundo daquelas personagens, nos alerta para o tempo negro da escravatura e do desrespeito aos índios. Num cenário de abusos, era ao Zorro que competia fazer justiça.  

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Obras de Eugénio de Andrade, volume 1


Editado pela Assírio e Alvim, este volume reúne as três primeiras obras poéticas de Eugénio de Andrade. “Primeiros Poemas” trata-se de uma seleção de dez poemas do autor das suas duas primeiras obras, “Adolescente” (1942) e “Pureza” (1945). São poemas curtos, que variam entre uma e três estrofes, e os maiores têm apenas onze versos. São poemas simples, pontuados por ligações à agua (fonte, ribeiro), à noite, à natureza. Destes destacamos:

PAISAGEM
Entre pinheiros
três casas.
Uma azenha parada.
Uma torre erguida
de fraga em fraga
contra o céu de cal.
E um silêncio talhado
para o voo de um moscardo
alastra de casa em casa,
sobe à torre abandonada
e sobe a azenha parada
tomba desamparado.

“As mãos e os frutos”, pulbicado pela primeira vez em 1948, é uma obra com 35 poemas numerados, a maioria dos quais sem título. Ao nível da forma vai do dístico a estrofes com mais de uma dezena de versos. Estes poemas são pontuados igualmente por elementos naturalistas, por uma leveza, na sua grande maioria. Os frutos são constantes (ou não dosse esse o seu título… vão das espigas, vinhas, cerejas e romãs. Vimos igualmente um certo jogo de sonoridades, que dá uma musicalidade à poesia (“e ficaria surdo e cego e mudo”; “a tua vinha sem vinho”).


Por fim, “Os Amantes sem Dinheiro”, lançado em 1950, trata-se de cerca de vinte poemas, todos titulados. Transversalmente, podemos considera-lo como sendo pontuado por três grandes temas: a liberdade (personificada numa gaivota), a mãe e o amor. É inclusivamente o último poema, “Adeus”, que nos traz o que fica do fim de uma relação. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares


Este foi o segundo romance do autor, posterior ao célebre Equador, publicado pela primeira vez em 2007. É a história da vida de um homem, que começa na sua adolescência e vai até à sua “meia-idade”. Traz-nos o retrato do Portugal do fim da monarquia, da agoniante primeira república e sobretudo do início do regime salazarista até ao final da 2.ª Guerra Mundial. De como viviam os grandes proprietários alentejanos. De como sobrevivia um indivíduo inconformado com o que o destino lhe dera: ser morgado, ou ser o dono de uma grande herdade alentejana. De como queria mais e queria ir mais além. E é isso que este livro retrata: a busca pelo seu lugar no mundo de um homem que não estava conformado com o que o destino lhe deu.

Encontramos aqui uma excelente construção narrativa, com processos encadeados ao longo das 600 páginas, alternados com uma descrição (excessiva, na nossa opinião) da situação política que se vivia naquela altura um pouco por todo o mundo. Personagens muito bem construídas, sobretudo o próprio protagonista, o seu irmão, a sua mãe e a sua mulher. Chegamos ao fim com sensação de conhecer o interior daquelas quatro pessoas no que de melhor e de pior pensam, das suas aspirações, dos seus desejos, dos seus amores, das suas paixões.


Todo o livro, para poder ser considerado uma obra literária, deve transmitir uma mensagem. A d’ “O Rio das Flores” é clara: Nunca deixar de lutar por aquilo que queremos para nós mesmos!