"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
Bernardo Soares
Livro do Desassossego

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Asterix entre os Pictos, de Jean-Yves Ferri e Didier Conard


É o primeiro álbum de banda desenhada das aventuras dos gauleses Astérix e Obélix que não conta com a assinatura de Albert Uderzo. Ao completarem 50 anos, parece que o autor se despediu das personagens que criou, tendo passado o testemunho a outros. E com efeito, podemos dizer que estes autores mantêm o espírito de Astérix e Obélix, assim como da sua aldeia. Não é a melhor história já vista dos nossos amigos gauleses, contudo, isto de ser o melhor ou o pior é bastante subjetivo.

Representando alguns elementos da cultura popular da Escócia (as personagens são os MacQualquer Coisa, os klits em padrões axadrezados e até o fantástico monstro do Loch Ness), mais uma vez não faltam os romanos à mistura, com a poção mágica de Panoramix. Inclusivamente, o álbum termina com o celebérrimo banquete na pequena aldeia gaulesa, por Tutatis!



Como já referi, não é o melhor álbum de Astérix que já li (uma opinião, apenas), apesar de ser bom. Iremos ter de esperar pelo próximo, para sabermos que Ferri e Conard serão estarão à altura da pesada herança que são as aventuras de Astérix. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os Segredos da Memória, de Elias Rodrigues


Este livro não é um livro de contos nem de crónicas. Não é tão pouco um romance histórico, um simples livro de memórias ou até de etnografia. E tem um pouco de tudo isto (e talvez mais), sem caber exatamente em nenhuma destas categorias. Porque temos esta terrível mania de classificar um livro como pertencente a determinado género (literário ou não), temos hoje este livro que não se pode enquadrar necessariamente em nenhum destes géneros (dificuldade essa bem sentida por um dos apresentadores da obra, no seu lançamento). Contudo, não deixa de ser um excelente livro. Ou talvez seja precisamente por isso que o seja.

Com efeito, assiste-se aqui a uma notável mistura de memórias do autor em diversos locais, sendo Almeirim um deles. Mas não é o Almeirim de hoje, mas sim o dos três primeiros quartos do séc. XX, com as suas personalidades da época, lojas e tascas. Um Almeirim já desaparecido e que o autor vem imortalizar nestas páginas. Em torno destas surge a estória de algo ou alguém, verdadeira ou ficcionada? Quem saberá?

No lançamento, o próprio autor assumiu esta obra como uma mistura entre ficção e realidade. E pode afirmar-se que, sem dúvida, a mistura resultou num belo pedaço de literatura, que proporcionará a quem conheça sobretudo Almeirim, mas também Milfontes, Coimbra, Lisboa ou o Porto, voltar a visitá-los com outros olhos.

De toda a obra destaco o seguinte excerto, por nos transportar precisamente para outro momento da história. Onde a vivência escolar era bem diferente de hoje:

A escola tem uma torre com um relógio e um sino… Para chegar à sala das aulas é preciso subir umas escadas muito altas de madeira que range. O que a rapaziada mais gosta é de ouvir a sineta para as brincadeiras do recreio e o que gosta menos é das reguadas. Os rapazes têm salas e recreios separados das raparigas por causa das coisas.” (p.60).


Para além disto, e para acentuar a pluralidade desta obra (o será a sua singularidade?), esta está pontuada com várias ilustrações, feitas pelo autor ou por amigos seus, que lhe dão outro colorido, apesar de serem a preto e branco.


Uma obra ímpar, que vem, sem dúvida, enriquecer o nosso panorama literário.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Estranho ano de Vanessa M, de Filipa Fonseca Silva


A autora deste livro já esteve em alguns tops mundiais, nomeadamente o dos livros mais vendidos do Amazon (creio eu!). E a minha opinião sobre a qualidade deste género de obras, por norma, não tende a ser simpática (veja-se o caso d’ “As cinquenta sombras”). Contudo, como isto dos livros não é matemático, e “O Estranho ano de Vanessa M” é um livro que, pessoalmente, acho que merece verdadeiramente ser lido.

Um bom livro, sobretudo quando se trata de literatura sobre o quotidiano, deve sempre tentar transmitir uma mensagem, ou seja, para além de proporcionar o prazer de ler e de nos evadirmos dos nossos próprios problemas, dar-nos também a possibilidade de pensar naquilo que queremos para a nossa vida.

E Filipa Fonseca Silva traz-nos uma Vanessa na casa dos trinta, casada, com uma filha, nem emprego com um chefe incompetente e que detesta. E vive infeliz, porque sempre viveu a vida que os outros queriam ou esperavam que ela tivesse, em detrimento daquilo que gostava e queria fazer. E este livro é precisamente isto: a busca pela felicidade, o 'grito do Ipiranga' para a descoberta de si próprio e do que quer fazer da sua vida. E sobretudo a descoberta que só conseguimos ser felizes quando nos aceitamos e quando mandamos as convenções sociais 'à fava'.

Poucas São as personagens que têm nome: São a mãe, a filha, a tia, .... 
E ainda Bem que assim é! 

Com uma escrita escorreita, FFS mostra-nos tudo isto, intercalando a ação narrativa com momentos de reflexão e humorísticos, advenientes da tia, uma hippie que fez aquilo que muitos gostariam de ter feito: viveu a sua vida sem se importar com o que os outros pudessem pensar. 


Deixa-se aqui alguns excertos desta nova obra:

Na nossa idade, já ninguém vive com ninguém, filha. (…) Nã… cada um na sua casinha e, depois, lá nos vamos divertindo quando nos apetece ou quanto as dores o permitem” (p. 27)

“O problema das relações é que os homens esperem que as mulheres lhes dêm instruções e as mulheres esperam que os homens lhes leiam os pensamentos” (p. 61)

“Os dias, as semanas e os meses eram indistinguíveis e os anos pautados pelos mesmos momentos: trabalho, férias, trabalho, Natal, novo ano, desejos e resoluções abafadas por mais trabalho, outra vez férias e assim sucessivamente. Dei por mim com trinta e tal anos e um futuro de monotonia pela frente. Dei por mim infeliz, reprimida por um chefe tirânico, incompetente e que consegue levar as pessoas à loucura.” (p. 164)


Este livro não é editado por nenhuma editora, pelo que se pode dar os parabéns à autora por ter a coragem de se lançar sozinha nesta aventura.

sábado, 28 de dezembro de 2013

“Marina”, de Carlos Ruiz Zafón


Foi o quarto livro do autor, depois da “Trilogia da Neblina”, e o último dedicado a jovens/ adolescentes, segundo a sua própria intenção, mas lido por muitos cuja faixa etária já está fora do que se pode considerar “jovem” (apesar da juventude ser, antes de tudo, um estado de espírito). É sem dúvida uma narrativa de suspense, pontuada com momentos altos e reviravoltas constantes. É narrada na primeira pessoa, por um dos protagonistas, Óscar Drai. E vamos tendo acesso às informações ao mesmo tempo que o narrador, seguindo assim por dentro a busca deste pelos acontecimentos passados em Barcelona anos antes dele.  

Aqui os dois protagonistas procuram respostas para um mistério que gira em torno de um médico, um cocheiro/ motorista dedicado ao seu patrão, um empresário falido e sem escrúpulos, um mendigo que vira o homem mais rico de Barcelona, e que se casa com uma atriz explorada como artista por dois irmãos gémeos. Paralelamente a esta, há a história dos protagonistas, cujo final não é feliz, porque a vida nem sempre é feliz. Como também não o foi para aqueles cujo mistério perseguiram.  

É uma obra que nos faz refletir em diversos aspetos humanos, quantas vezes contraditórios: beleza – deficiência física; lucidez – demência; vida – morte; mortalidade – imortalidade. É antes de mais um tributo à vida e faz-nos chegar a uma conclusão: a vida é breve, não sabemos quando pode terminar, há que a viver sem nos importamos (ou tentando minimizar) as nossas limitações físicas. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Assassinato de Roger Ackroyd

Publicado pela primeira vez em 1926, com o título The Murder of Roger Ackroyd, é normalmente considerado a obra-prima de Agatha Christie. Título que, na minha opinião, se encontra a par com outro policial da autora: “As dez figuras negras”. Como em todos os policiais, a pergunta que domina o livro é “Quem matou X?”, neste caso, “Quem matou Roger Ackroyd?”.



Os factos que se vão apresentando adensam o mistério: todos aqueles que realmente poderiam beneficiar com a morte dele, têm alibis suficientemente convincentes. A um determinado momento, Hercule Poirot (a mais famosa personagem de AC), diz que todos aqueles que estavam à mesa com ele, escondiam algo. Todos eles! E gradualmente, foi-se descobrindo o que cada um escondia. Bem perto do final, Poirot junta novamente todas estas pessoas e confronta a consciência de cada um com os factos.


Já por várias vezes que tinha ouvido falar deste livro, como estando relacionada parte da ação com uma “troca de sapatos”. Ora, ao ler logo após a descoberta do cadáver assassinado, percebe-se quem estava inocente (pelos comentários que já tinham partilhado comigo). Contudo, apesar de ter esta informação, torna-se bastante difícil perceber quem era realmente o assassino. E quando Poirot confronta todos os possíveis, desenha-se um assassino possível bem demais (o que me levou a crer que seria um outro). Contudo, o final supera todas as expectativas. Será sempre aquele que não se não se considerou o verdadeiro assassino. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Dia de Natal



Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
 
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

Imagem: Bom Jesus de Braga, retirada de: http://www.tsf.pt/Storage/ng1077888.jpg

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Balada de Neve - Porque hoje começa o inverno!

 

Balada de Neve


Batem leve, levemente, como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente e a chuva não bate assim...
 

É talvez a ventania, mas há pouco há poucochinho,
Nem uma agulha bulia na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Fui ver. A neve caia do azul cinzento do céu,
Branca e leve branca e fria...
Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu!
 

Olho através da vidraça. Pôs tudo da côr do linho.
Passa gente e quando passa,
Os passos imprime e traça na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais, os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...a neve deixa ainda vê-los, 
Primeiro bem definidos
Depois em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor porque lhes dais tanta dor?!
Porque padecem assim?!...
 

E uma infinita tristeza, uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza e cai no meu coração.


Luar de Janeiro - Augusto Gil

Imagem retirada daqui: http://torre-moncorvo.blogspot.pt/2011/01/paisagens-de-inverno-por-terras-de.html